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O Sim e o Não no Reino da Opinião


  [Tradução Gederson Falcometa]

La Civiltà Cattolica anno 11° vol. 6, serie IV, Roma 1860.



R. P. LUIGI TAPARELLI D’AZEGLIO

Que me diz o leitor? A opinião é a rainha do mundo

Este é um daqueles problemas equívocos, ao qual se pode justamente responder com um sim como também com um não. Para desintricá-lo de suas ambiguidades, o transformaremos em outros dois problemas.

 «Toca a verdade das coisas conformar-se a opinião dos homens ou a opinião dos homens deve conformar-se com a verdade das coisas»? Se a opinião pudesse transformar as coisas, a dúvida poderia ser razoável. Mas o ser das coisas é independente do nosso pensamento. Opinou-se por séculos segundo o sistema ptolomaico, em seguida segundo o copernicano, nem por isso mudaram os astros o seu curso. Então, a opinião não é a rainha do mundo.

 Agora eis um segundo problema. «O homem se guia naturalmente segundo a sua opinião ou contra a sua opinião»? Ou em outros termos: «O homem e a multidão dos homens pode operar sem querer um bem, e quere-lo sem conhecê-lo»?

 Basta a mais leve tintura de antropologia para responder que não. Se o homem deve operar como homem, é preciso que queira: para querer deve encontrar alguma razão de bem; este bem não o pode encontrar se não com a razão. Então, o operar do homem e da multidão é regulado pela razão. Ora, o juízo da multidão se apela a Opinião pública. Por isso a opinião guia o operar da multidão, e é por consequência a rainha da sociedade.

Aqui, no entanto, entra um terceiro problema. «A multidão é infalível nos seus juízos? E se errasse, tem ela razão no operar segundo estes falsos juízos? Se a multidão tem razão em operar assim, isto é, quando o seu juízo é falso, a opinião é verdadeiramente rainha; rainha de fato e rainha de direito. Se não tem razão, o seu erro a conduzirá no fato, mas a opinião não será rainha de direito.

 Então, aqui está o grande problema. Que toque a verdade regular às ciências especulativas, ninguém há que o negue. Que as multidões sejam arrastadas pelas opiniões em que se enlaçam, é um fato que todos veem. Aquilo que pode ser problemático é se a esta opinião do vulgo se deva ser condescendente ou se deva resistir. O liberalismo heterodoxo não cessa de invoca-la, como rainha; e quando tem gritado em face de seus adversários a opinião pública, o espírito segundo o século e similares frases que nada dizem, pretende apenas a cega obediência. O Católico por outro lado, mesmo diante de um povo inteiro que negue a verdade, está disposto a combater a opinião para não sacrificar os direitos da verdade.

 Qual das duas sentenças é mais razoável? Examinemos os seus fundamentos.


 Onde se move o heterodoxo para estabelecer o reino da opinião? Parecera-lhes estranho o fato: ele parte da independência da razão privada. Sim senhor, exatamente porque a razão de cada um é autônoma por direito natural, precisamente por isso cada um deve depender da opinião pública. 

 Estranha contradição! Direis vós: devo depender, porque sou independente! Mas como pode ela nascer da independência absoluta do individuo?

A gênese é simplíssima: a sociedade para os heterodoxos é a união de milhares de milhões de intelectos autônomos. Ora, entre estas milhões de opiniões que discordam necessariamente por milhares de razões, é onde nasce a imensa diferença nos pensamentos e afetos. E todavia, se umas as outras não se acomodam, nunca poderão formar a unidade, e darão movimento a máquina social? Um só meio até agora se encontrou para compor o dissidio dos iguais, quando a evidência do direito concordemente não fala; se recorre à conciliação, se vem a composição, se estabelece um árbitro, prometendo aceitar, qualquer que seja a sentença. E assim precisamente devem operar entre protestantes os milhares, os milhões de cérebros, todos igualmente infalíveis e também todos pensando ao seu próprio modo. Bem entendido que quando se escolhe o árbitro, se lhe aceita a sentença prática por necessidade, sem levar o intelecto a acreditar como verdadeira a sentença especulativa. Se aceita a primeira, porque a necessidade social a impõe; se recusa a secunda, porque na razão privada uma necessidade contrária se opõe. A ação é livre, logo se permite o comando: o intelecto não se curva senão diante do verdadeiro, então até que o verdadeiro não apareça, o intelecto permanecerá relutante. Assim, o arbitrado regula a obra externa e material, deixando livres os intelectos para de dentro condenar doutrinalmente aquilo que praticamente se executa. O quanto seja moral tal modo de operar não o consideramos agora, mas por hora basta dizer: isto para o heterodoxo é uma necessidade social. 

Mas qual será a pessoa, qual será o árbitro, que se dará o Governo dos heterodoxos? Entre milhares de iguais a única diferença que se pode encontrar é no número. Por isso querendo uma sentença definitiva, ou deverá se estabelecer que muitos obedeçam a poucos ou que os poucos a muitos. Se si estabelece o reino dos poucos, seria um Governo irrazoável, sem força, Governo impotente, Governo inútil, Governo que não pode governar. Resta então o Governo dos muitos sobre poucos, da força sobre a fraqueza: Governo que, se não é seguro de ter razão, é certo ao menos de obter o efeito. Quando os muitos empregam a força material, apelam ao exército; quando impõem com influência moral, a opinião.

Eis então de onde nasce o reino da opinião: nasce 1º da impossibilidade presumida de conhecer com certeza o verdadeiro e o justo, aos quais os intelectos e as vontades deveriam se sujeitar; 2º de certa presunção provável que os muitos adivinhem melhor que os poucos; 3º da segurança que, tendo razão ou não, os muitos tem a força para se fazerem obedecer, e estão certos por consequência de formar na sociedade ao menos aquela ordem material, que com a força de todo material assegura os assaltos de qualquer um.

 Então, vejais por vós mesmos ao ultimo problema proposto os heterodoxos, como havíamos dito, devem responder de si: e o seu argumento pode reduzir-se nesta fórmula.

 Pressupondo que a opinião pública obtém a longo prazo a preponderância na obra, e que a sociedade exige absolutamente unidade de operação social; qualquer um que não queira renunciar a sociedade deve obter a harmonia da opinião pública com operação; ou comandando a própria opinião para que se adeque ao direito ou mudando ou o direito para que se adeque a opinião. Ora, entre os heterodoxos não se pode comandar a opinião segundo o direito: então é preciso modificar o direito segundo as opiniões. O argumento, como pode se ver, é estritamente lógico, se si pressupõe o princípio da racional independência dos homens e da sua natureza sociável. 

 Vemos muito bem que o nosso leitor encontrará nisso contradições e tiranias. «Como? Dirá, o intelecto independente per natura, é per natura obrigado a obedecer! O intelecto que adere necessariamente ao verdadeiro deverá por obediência aderir ao falso! Ou se não é obrigado a aderir o intelecto, deverá a vontade ceder àquilo que ele julga iniquo e malvado! E a opinião terá o direito de comandar a iniquidade e de constringir a operar contra a consciência! E tudo isto precisamente em nome daquela independência nativa que se exige como direito inalienável, a liberdade de consciência»! Estas contradições, este despotismo enoja a cada leitor católico: e de tal desgosto nasce o grito de indignação, com que todos os católicos condenaram a tirânica perseguição daqueles governantes que na Itália central querem a todo custo extorquir do clero certos Te Deum, sob a acusação de que isso não se pode cantar sem ofender a legítima autoridade eclesiástica e a própria consciência. Mas qualquer que seja o desgosto que lhe provais, podemos nós cancelar as leis do pensamento? Podemos nós fazer que de um conceito contraditório (criatura independente, ou seja, criatura não criatura) não surjam consequências contraditórias? Ou que para a sociedade não seja necessária a dependência? Ou que entre iguais se encontrem razões de diferença? Ou que a diferença de número se torne diferença de mérito e de direito? Ou que o depender de quem não tem méritos ou direitos não seja escravidão? Todas estas consequências fluem a rigor da lógica do princípio de independência heterodoxa. Se vós não gostais, não existe outro remédio que o cancelar a lógica, ou cancelar o princípio: mudar o princípio não se quer, a lógica não se pode. Portanto, os heterodoxos devem se resignar e aceitar o reino das pluralidades embora despropositado e despótico. 

 Notem a este propósito: às vezes se ri da Idade Média que a sentenciar sobre um artigo de fé, ou sobre um ponto de direito, invocava ou a natural voracidade das chamas ou a espada de um paladino em um torneio: como se o valor do paladino ou o combinar-se do oxigênio fossem boas razões para concluir uma verdade doutrinal. Ora, parece a vós muito mais sábio o século presente, quando, para dez bolinhas a mais que se agitam em uma urna por qualquer ignorante ou descuidado, infere a santidade de uma lei que com dez bolinhas a menos, seria reprovada como funesta ou malvada?

 Mas a absurda tirania contra os intelectos e as consciências  salvará ao menos aquela parte do bem público que poderia dizer-se interesse material? Mesmo isto, notem, depende mais de certas leis estabelecidas pela natureza, que nem mesmo o sufrágio universal de todo um povo poderia mudar. Fazei por exemplo, que com toda a essa plenitude de assentimento se prescreva a uma inteira nação que ao invés de beber água beba ácido prússico: a universalidade do erro bastará a este povo para sobreviver aos tormentos do veneno? É talvez menos funesto o ópio aos Chineses, porque universal é a mania de embriagar-se? 

 Ora, aquilo que se diz das causas materiais quer se dizer igualmente das causas morais. Se a lei do divórcio descompaginar a família, se das famílias descompaginadas resulta grave desordem na sociedade civil; mesmo que seja o quanto se queira inocente o erro do legislador, que arredado por sofismas introduz o divórcio no código, não resultará por isto menos funesto a sociedade o ter ingerido este ácido prússico. Poderá desculpar-se o legislador se era verdadeiramente inocente (é possível?) no abandonar as normas do Evangelho e da Igreja: mas se fosse mesmo inocente como uma pomba, os efeitos da lei não mudariam, e a confusão das famílias propagariam a confusão na sociedade.
 Então?...
Então, a prevalência da pluralidade não torna per sè justa e vantajosa a lei. Contudo, isto mesmo sendo necessário a uma lei qualquer, afim de que a sociedade não se dissolva, o heterodoxo será constrito a aceitar, ainda que injusta e nociva, a sentença do vulgo: e isto é o despotismo da multidão. Ou se algumas pessoas prudentes e resolutas tem em mãos o governo do Estado e querem conseguir intentos diversos daqueles do vulgo, devem negar no fato (e isto é despotismo de palácio), a liberdade de pensamento conseguida pela lei, fechando os círculos, sequestrando jornais, monopolizando a instrução pública, obstaculizando a publicação dos livros, endereçando a seu modo a moralidade dos teatros, etc, afim de que a opinião que deve mover a sociedade seja tal, que a conduza onde esses a querem. E isto é finalmente aquilo que é feito por todos os peritos governamentais sejam liberais ou católicos, com a diferença de que os Católicos em assim se regular são coerentes, enquanto os heterodoxos se contradizem.

 Então, por ultimo, admitido o princípio heterodoxo da razão inalienavelmente autônoma, o único meio de salvar a sociedade é o negar com uma fachada contradição esta autonomia, estabelecer o reino da força a despeito de qualquer ditado dos intelectos ou das consciências.

Atente bem, leitor, a esta ultima ilação, a qual chega a evidência do conto quanto aquilo que dizemos anteriormente, onde foi por nós citada a liberdade ao tribunal da Igreja; e que repetiremos ainda muitas vezes arrastada por milhares de erros e delitos, dos quais não se desviará enquanto não estiver convencida que esta famosa liberdade de 1789 é na verdade um absurdo e celerado despotismo. Se assim a entendessem os panegiristas daquelas famosas conquistas ou se dignassem ao menos a  responder os nossos argumentos! Mas porque esses se contentam de repetir os erros, a vós não será desagradável que nós, quando a ocasião se apresenta, reforcemos a refutação sempre com novos argumentos. Se obtivéssemos finalmente de fazer compreender bem que o pretendido reino da liberdade é verdadeiro despotismo, encontrarias mais um liberal sincero que quisesse renegar as antigas doutrinas católicas, para comprar-se com tal apostasia a escravidão?

 Repetimo-lo então: admitida a independência heterodoxa plena e igual para todos no pensamento, na consciência e na obra, não é mais possível a sociedade, se não se encontra um árbitro a qual sujeita-la. Este árbitro não pode ser a verdade, porque a independência do pensamento concede a cada um o direito de crer verdadeira a própria razão. Não sendo ligados aos homens pelo direito da verdade, e sendo também necessário um vínculo de unidade social, outra coisa não permanece que a força da pluralidade. Ora, a força imposta sem os direitos do verdadeiro e do justo é força despótica. Então, admitida a liberdade heterodoxa, ou seja, igual independência de todos os intelectos, a sociedade não existe senão com a ajuda do despotismo: e por consequência os pretensos promotores da liberdade devem necessariamente se tornar os tiranos dos seus concidadãos.

 Se a teoria corresponde ao fato, o veremos dentre pouco. Se a teoria, em si admite qualquer réplica, nós pedimos aos nossos adversários para explica-la, contrapondo ponto por ponto a nossa breve e límpida demonstração.

 Vejamos agora qual é a resposta do Católico a este problema.  «A opinião tem ela o direito de sempre guiar o operar das multidões»? Qualquer que seja a multidão dos intelectos, a verdade tem o direito de comandar a todos, porque ela é certa. Ora, depois da revelação divina todas as verdades religiosas e morais necessárias para viver honestamente estão certamente em posse da Igreja, que é columna et firmamentum veritatis. Então, todos os homens nas matérias morais devem depender da Igreja, julgando e operando a norma dos seus ensinamentos. Mas a estes ensinamentos pode muitas vezes opor-se a opinião. Logo, ainda que esta governe de fato, nem sempre governa de direito. Tem também o governo quando se trata de matéria, onde não é empenhada a consciência, ou não é certa a verdade. Mas quando se trata de honestidade moral, quando esta honestidade é firmemente assegurada pelo oráculo da Igreja; então grite também um povo inteiro reus est mortis, injusta será a sentença e cada ânimo honesto sentirá o dever de resistir.

Segundo o Católico então, a opinião poderá ser a tirana do mundo, governando-o de fato, mas não lhe será jamais a rainha, não havendo per sè o direito de governá-lo. Destas duas teorias resultam como cada um vê, duas politicas: a católica a qual se engenha de regular os acontecimentos segundo os princípios, a custo de qualquer sacrifício; e a heterodoxa pronta a sacrificar os princípios, contanto que se obtenha o favor dos homens. A primeira expressa pelos Franceses com o cavalheiresco aforisma fais que dois, advienne que pourra,  e aquela de que nos dá o belo ensaio do reinante Pontífice [Ndt.: Pio IX] expondo-lhe a todos os desdéns dos poderosos com seu generoso non possumus. Esta politica é fundada sobre a intervenção da Providência nas coisas do mundo e sobre a promessa evangélica haec omnia adiicientur vobis. A política heterodoxa por outro lado, é aquela do progredir com o século, do não opor-se a opinião, do secundarizar os desejos do povo; formulas todas que significam em bom vulgar colocar de lado os princípios, para comprar popularidade e beneficiar os próprios interesses.

 Consideramos até agora a sentença teórica das duas escolas; e a contradição entre elas não poderia ser maior. Mas qual deveria ser a sua aplicação prática? O vê qualquer um: o Católico persuadido que uma opinião falsa não tem o direito de governar o mundo, deve se valer de todo homem, para corrigir a opinião, expelindo-lhe o erro: de forma que o reino de fato se juntasse o reino de direito, e a Verdade, reinando sobre os intelectos, segundo o que a ela compete, reinasse igualmente no fato das obras. Este pleno consenso da verdade, dos intelectos e da obra produziria na sociedade uma perfeita e naturalíssima harmonia e, todavia, a plenitude possível da felicidade.

 O heterodoxo por outro lado, persuadido que a razão é independente e que a pluralidade das razões tem o direito de comandar, deve deixar libérrimo o pensamento e a palavra, aceitando da pluralidade o decreto, qualquer que seja, da opinião pública.

 Sim certamente, assim requer a lógica, pressupostos os princípios. Mas o homem é ele sempre lógico? E as paixões sempre aceitam o julgo dos princípios? Confessamo-lo francamente e digamos com o Evangelho a nossa confusão prudentiores filii tenebrarum. Os Católicos que negam a opinião os direitos de soberania, lhe aceitam muitas vezes o julgo como escravos; e apenas sentem-se intimar que o século quer, que o progresso ordena, etc, se resignam a tirania e curvam o pescoço ao julgo sem silenciar. Os heterodoxos por outro lado, enquanto dizem em teoria que reina a opinião, compreendem muito bem existirem mil maneiras de dominá-la; e aplicando a ela o seu aforisma: «o Rei reina e não governa», empenham todas as artes para dominá-la, seguros de possuir o mundo, acorrentando a nossa opinião. 
 Demos uma olhada neste proceder das duas escolas igualmente coerentes de ambas as partes. Vejamos agora, em qual Modo os heterodoxos que deveriam obedecer, a opinião, lhe comandam; e os Católicos que deveriam lhes comandar, lhes obedecem. E a contemplação deste doloroso espetáculo nos encoraja a resistir a tirania dos primeiros e para despertar a apatia dos segundos.

E quanto a tirania dos primeiros, não há quem não saiba como ela procede. Persuade-se da necessidade de dominar as mentes para dominar a sociedade, apenas vendo brilhar uma esperança de agarrar o timão do Estado, vós lhes vedeis lançarem-se com uma espécie de obsessão febril sobre todos os meios de publicidade e de influência sobre os intelectuais. Escolas públicas e privadas, jornais cotidianos, semanais, mensais, academias científicas e literárias, edições repetidas de obras favoráveis, silêncio ou descrédito contra as obras contrárias, declamações de saltimbancos para o vulgo; tragédias e comédias para a classe civil, músicas e romances para damas e dândis; tudo se procura para que se cante em uníssono, para que se forme um só juízo, uma só opinião. E se às vezes chegam a encontrar pelos esgotos sociais qualquer recusa do santuário, um padre apóstata que profane o Evangelho do púlpito, ou blasfeme de jaleco entre as divertidas brigadas, chegam então a plenitude dos seus votos, e vão alardeando que também os padres estão plenamente de acordo com a opinião.

  Leiam as Memórias para uma história do Jacobinismo, que foram, pode se dizer, as primeiras denuncias solenes da imensa conjuração iluminista; percorrei em seguida toda a história dos assolamentos europeus: interrogados finalmente todos aqueles, dos quais foi ensinada em teoria, ou exercitada na prática a arte (verdadeira arte hoje em dia que se ensina por princípio, que tem prontos os métodos, experimentados os meios, calculado o tempo e assegurados os resultados) de devastar uma sociedade tranquila: tudo demonstrará que é necessário padronizar as mentes antes de comandar nas praças. E para não nos distanciarmos dos exemplos que nos oferece a presente agitação italiana, escutai como lhe preparava a desorganização um daqueles tantos livretos anônimos que enxameavam a França em 1859, intitulado La Foi des Traités. No § 6° (pag. 27) o anônimo se ocupa em explicar de qual modo a gente cristianíssima irá promover na Itália a santa lei de caridade e de amor. «Acreditai vós, diz, que tal dever tenha ele a cumpri-lo com a guerra? Não temeis: a opinião vai maturando aqueles princípios que foram gritados pela santa aliança. Fiéis a estes princípios essa lhe prepara com idéias a propagação: e quando estas idéias produzirem o seu fruto, empossando-se dos intelectos e atraindo os povos para mudar lhes em ato, de forma que comece a mudar e agitar-se, cimentando a paz da Europa; então se qualquer oposição anticristã (não sabemos de qual cristianismo fala o autor) vetasse o conduzir lhe a efeito, ali estará a França acorrendo e fazendo-se o primeiro soldado da PALAVRA DE VIDA.

 «Não agora, vigiai, que se queira subitamente desembainhar a espada: esta se reserva para depois. Antes por quanto é possível a França trabalha com potências da idéia e da língua; onde resplandece para todos nos intelectos e nos corações o direito, a justiça, a caridade a seu modo, mostrando aos outros a sua vantagem. E quando a força de falar conseguir isolar seus inimigos, a fazer vacilar as consciências, a fazer titubear comandantes e defensores; então a França desembainhará a espada e a vitória será inquestionável. Esta política a professamos sem dissimulação, sem mistério e a alta voz. A opinião é a rainha do mundo e quem dela toma posse triunfa. O tinha escrito a longo tempo Napoleão I nas memórias de S. Helena: «O primeiro Soberano que no grande combate abraçar de boa fé a causa dos povos (Ou de quem se diz o povo) se encontrará como sumo chefe de toda a Europa e poderá quando quiser tentar. Abraçar então de boa fé a causa dos povos, eis a missão da França».
 Assim aquele anônimo. Agora direis, poderia explicar-se mais candidamente em qual modo este regenerador entende conceder a liberdade às ideias e aos povos. Conceder tal liberdade significa, como podem ver, no vocabulário deles, surpreender antes com a fraude e constringir depois com a força todos os povos a uniformizarem-se as idéias francesas ou mais as ideias revolucionárias. Até que estes não penetrem no povo, se pede liberdade para publicar lhes: quando, publicados, começam a agitar-se e comprometer a paz da Europa, a doutrina contrária se diz oposição anticristã; e o soldado da verdade se mostra pronto a desembainhar a espada para comprimir toda doutrina contrária. Quando esta é constrita a silenciar, quando políticos, magistrados, soldados, aliados que a defendem, se encontram isolados naquele silêncio, nem surge mais uma voz que fala por eles (seront démoralisés), então a espada é embainhada, e a opinião triunfa com a liberdade da cimitarra.

  Aquilo que o livreto anônimo prometia em 1839, os italianíssimos o conseguiram com a sua primeira chegada ao vértice do poder. Em Florença o Barão Bettino declarava francamente que é proibido na Toscana o ingresso e a circulação de todo opúsculo político e religioso publicado em Roma e nos outros lugares, etc. E sabeis por quê? Porque aqueles opúsculos confundem as verdades eternas da religião com os transitórios interesses mundanos, ultrajando com o erro a fé e a civilização... Contra estas armas tem necessidade e direito de premunir-se os Estados da Itália central. Assim o Ricasoli. 

 Ora, todo leitor sensato deve dizer em seu coração: mas caro Bascià Bettino, se estas armas podem fazer tanto mal que garantem até mesmo o direito de premunir-se tirando a opinião dos vossos adversários, todos os meios de manifestarem-se, para que nos dizer que a imprensa deve ser livre e a opinião rainha?

  E este mesmo argumento, se poderia usar contra os Farini na Emília Romagna, contra os Migliorati em Ferrara e em suma contra todos os liberais quando chegam ao poder, que em breve se apressam em tomar posse de todos os meios para governar a opinião, precisamente porque sabem que quem quer governar os homens deve governar a opinião; sendo que, a torto ou a direito, a opinião governa de fato, não podendo o homem operar diferentemente daquilo que quer, ou querer de outro modo aquilo que pensa.

 E aqui notais a ridícula contradição. A razão que eles alegam para dar plena liberdade às opiniões é que «afastada a liberdade de expressão não existirá mais barreira contra a tirania. Por outro lado, enquanto durar a liberdade de expressão, toda tirania tem fim, sendo impossível que não surja contra ela um protesto universal». E então, quando o protesto começa e se faz barreiras a liberdade, eles apelam ao direito de premunirem-se, aproveitando as línguas e as prensas, precisamente porque o público iria querer valer-se delas para defender-se da tirania.
 Os libertinos, então, tem razão na prática: todo o seu erro está na contradição teórica e na celerada hipocrisia, com que prosseguem a vangloriarem-se como doadores da liberdade, enquanto na verdade são fabricantes de cadeias e tiranos para os seus concidadãos. Mas compadecemo-nos: a contradição é uma necessidade do partido e quase diremos da sociedade; a qual não pode estar sem um governo: se então não governam os bons, é preciso que governem os maus.

 Aqueles que de modo algum merecem compadecimento, sabem quem são? Somos nós, nós defensores da ordem, nós crentes católicos que de um lado professamos em teoria, todas as opiniões devem se cativar em obséquio a fé  [In Captivitatem redigentes omnem intellectum, in obsequium Christi. II Cor. X, 5], e apenas com tal conformidade obsequiosa pode-se conseguir a tranquilidade e a perfeição da ordem social; e por outro lado recusamos na prática todos aqueles meios empregados para um mal fim dos nossos adversários, porque são absolutamente necessários ao bom andamento da comunidade civil. Vejais leitor, a estranha e deplorável antinomia! Aqueles que professam, as opiniões devem ser livres, encarceram a liberdade para não sacrificarem os seus interesses materiais; nós que professamos em teoria que as opiniões não devem ser livres, sacrificamos a teoria, e com ela sacrificamos ainda os interesses. Ó realmente que prudentiors filii tenebrarum!

 O leitor perspicaz e experimentado nas coisas do mundo compreenderá muito bem as aplicações práticas destas nossas considerações: mas os menos exercitados e agudos, não lhe medindo toda a extensão, poderão talvez reputar-lhes como querelas fantásticas de obscurantista melancólico. Portanto, será útil deixar claro o nosso pensamento mostrando as opiniões ora falsas, ora equívocas que por culpa nossa adquirem um império, e a negligência dos meios com que poderiam propagar-se as opiniões contrárias. Mas o mostrar isto, o cortês leitor nos consinta fazê-lo em outro tempo e em outro caderno.

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