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Jesus e a Religião




Ponto de partida: o significado da palavra

Isso posto, para começarmos a compreender a questão, comecemos pelo começo: o que é religião? E aqui não interessa saber o que eu acho, nem o que você acha. Precisamos encontrar a definição culta e precisa da frase, livre do que sugerem as imaginações particulares. Façamos então o mais simples e certo: consultemos o léxico. Nem o que você acha nem o que eu suponho, mas sim o que este vocábulo realmente quer dizer em nosso idioma. Pois bem; no Michaelis, constam as seguintes definições para a palavra: "Serviço ou culto a Deus; sentimento consciente de dependência ou submissão que liga a criatura humana ao Criador; culto externo ou interno prestado à divindade; Fé; Prática dos preceitos divinos ou revelados".

Ao reproduzir acima as palavras do dicionário, quis destacar em negrito as assertivas mais importantes. Acabei por notar, porém, que a definição inteira é vital! Cada sinônimo dado à palavra "religião" ajuda sobremaneira a esclarecê-la, e torna a sua compreensão bem mais clara... Em nosso idioma, religião simplesmente é:

• O culto a Deus, seja externo (que se presta por meio dos nossos atos, das posturas que adotamos perante a vida, das nossas obras de caridade) ou interno (em nossa fé mais profunda, nossa espiritualidade, nossa devoção e santo amor a Deus e ao nosso próximo);

• O sentimento de dependência que nos liga ao Criador; em outras palavras, é reconhecer nossa pequenez, humildade e insuficiência diante da infinitude, supremacia e onipotência divinas, – o que significa, simplesmente, adoração;

• A fé. – Note-se bem que, na língua culta, fé e religião são sinônimos. Ter fé é ter religião, e quem não tem religião não tem fé. Mesmo que não se integre uma instituição religiosa ou se adote determinada doutrina formal, professar a fé em Deus já é uma forma de confissão religiosa;

• A prática dos preceitos divinos ou revelados. Em outras palavras: quem pratica a Vontade de Deus pratica a verdadeira religião.

Mais simples e mais certo do que isto, impossível. A confusão só pode partir de quem não procura realmente conhecer a verdade, ou de alguém que antepõe outros interesses pessoais ao desejo sincero de saber o que é verdadeiro e o que não é. O fato é que, se estamos falando de cristianismo, sim, Deus criou religião, e a verdadeira religião é fundamental para que nos aproximemos dEle.


A origem da palavra

O vocábulo "religião", no sentido original, deriva do latimreligioreligionis, que quer dizer “culto, prática religiosa, cerimônia, lei divina, santidade”. Existe alguma controvérsia quanto à etimologia da palavra, no sentido de se definir de qual verbo esse substantivo seria a forma nominal: se de religare ou de religere, – mas essa definição não é tão importante, já que os significados de um e de outro são muito próximos, e o sentido que para nós interessa permanece o mesmo.

Religare
 significa “religação": quer dizer "religar, reatar, ligar bem e justamente”1. A tese de que a palava deriva do religare vem desde Lactâncio (séc III/IV dC). No caso que ora estudamos, religare quer dizer religar ao Divino, a Deus. – O ser humano, por seu egoísmo, ignorância, fraquezas, apegos e desejos desordenados (pecado) encontra-se separado, desligado de seu Criador. Religião, assim, é o ato ou a prática de se retomar essa ligação perdida, sendo que, no contexto do cristianismo, Jesus veio nos trazer exatamente isto.

Na outra versão, a forma derivaria de relegere, que quer dizer “retornar, reler, rever, reaver, revisitar, retomar o que estava largado ou perdido”1. O filósofo Cícero (De Natura Deorum, de 45 aC), defendeu esta etimologia. Nesse caso, para os cristãos, religião se referiria ao ato de reler sempre a Palavra ou Verbo de Deus, ou mais profundamente, de retornar incessantemente ao Caminho, que para nós, cristãos, é Cristo; ou, ainda, retomar nossa ligação (novamente) original com Deus. Religião, assim, é retomar a dimensão espiritual da vida, da qual as preocupações e cuidados mundanos tendem a nos afastar.

Agora, tendo compreendido bem do que exatamente estamos falando, que assim poderemos ver, com toda a clareza, é absolutamente desprovido de sentido:

“E a prova de que a religião não salva ninguém é Jesus Cristo, que nasceu no meio de uma família judaica, e e sendo judeu, por tradição familiar, Jesus nos ensinou que o caminho da salvação está nele. O problema de católicos, protestantes, espíritas, etc, é que colocam a religião acima de Deus.”

Depois de entender o que significa religião, ao lermos a afirmação acima notamos como carece de qualquer razão: se Jesus ensinou que o Caminho da salvação está nEle, então nós precisamos ouvir o que Ele diz, seguir o que Ele ensinou, observar o seu exemplo. E fazer isso é, exatamente, praticar a religião. Então, essa separação entre Jesus e religião simplesmente não é possível. Vemos que a confusão se dá no fato de o leitor atribuir ao vocábulo "religião" um significado equivocado.

Vou dar alguns exemplos para ajudar a clarear ainda mais a questão: Jesus mandou a Igreja batizar aqueles que cressem e aderissem ao Evangelho. Celebrou e mandou celebrar a Eucaristia em sua memória. Mandou observar uma série de regras morais. Edificou sua Igreja sobre o Apóstolo Pedro, e conferiu aos seus Apóstolos a missão de conduzir esta mesma Igreja, dando-lhes autoridade para tanto. Mandou que confessássemos os nossos pecados, e decretou que os pecados que seus Apóstolos (e seus sucessores, evidentemente) não perdoassem não seriam perdoados. Pois bem, são exatamente estas e outras coisas semelhantes que a Igreja faz e ensina a fazer, obedecendo ao que ensinou Jesus Cristo. A todo este conjunto de coisas é que chamamos religião.

"se estudassem um pouco de história, descobririam que ela na verdade foi fundada pelo imperador romano Constantino, que queria apenas o poder, já que não conseguiu destruir os seguidores de Cristo, "juntou-se" a eles, com o único objetivo de ganhar poder..."

Então quer dizer,  que a História diz que Constantino inventou a Igreja?! Bem, aqui você caiu no meu conceito, e caiu muito. Para ser honesto, você despencou num poço profundo, de ignorância e preconceito da pior espécie. Saia dessa! Que história seria essa, que você nos recomenda estudar? No grupo que constitui o apostolado responsável por este site, somos todos graduados, seja em Letras, História, Filosofia ou Teologia. – Não o dizemos com arrogância, mas apenas para deixar claro que não estamos aqui jogando palavras ao vento ou nos aventurando a falar daquilo que desconhecemos. – Mas parece que a sua fonte foi algum gibi ou algum livreto de histórias da carochinha. Ou então (bem mais provável) você ouviu essa tolice da boca de algum ignorante completo e acreditou, sem se importar em checar se havia a possibilidade de se tratar de um tremendo e colossal disparate. Então, por favor, já que você nos recomenda o estudo da História, queremos saber qual a sua fonte. Esperamos ansiosos.

O que a História mostra, de fato, é que Constantino revogou a proibição do culto cristão no Império romano, através do Édito de Milão. Aliás, no tempo de Constantino, o Papa era Melcíades, 32º Sumo Pontífice da Igreja depois de Pedro, e estes são dados históricos mais do que comprovados. Assim, não há como se afirmar que Constantino seja o fundador da Igreja, já que ele apenas deu liberdade aos cristãos, – que obviamente já existiam desde o ano I da Era Cristã, – acabando com mais de dois séculos e meio de perseguição e martírios. Trata-se de uma questão extremamente simples, fácil de compreender e impossível de se negar. É preciso um altíssimo grau de alienação da realidade para aceitar a ideia de que tenha sido um imperador romano o fundador da Igreja, a partir do século IV! Nenhuma igreja protestante histórica (mais antigas) adota esse tipo de teoria da conspiração maluca para renegar a autoridade da Igreja Católica, pois tanto seus pastores quanto seus adeptos são pessoas de melhor formação. Se quiser entender melhor essa questão, por favor, leia aqui, pois nós também já falamos sobre isso.

Aliás, você mesmo se contradiz, afirmando que Constantino, não conseguindo vencer os cristãos, juntou-se a eles. Ora, mas não foi ele quem inventou a Igreja? Se ele se juntou à Igreja para ganhar poder, como você diz, então você admite que a Igreja já existia antes dele (?!).

Imagens na Igreja, mais uma vez...

Com relação à adoração de imagens, a Bíblia é bem clara com relação a isso, e mostra que Deus não admite adoração às imagens...

E aí vem você, depois de uma centena de ditos “evangélicos”, gritar mais uma vez que nós, católicos, "adoramos" imagens, e, na mesma afirmação, que imagem na Igreja é sinônimo de idolatria... Nós já respondemos a essas coisas uma centena de vezes também. Mas a paciência é uma grande virtude, na qual, eu confesso, sou falho. Logo, tentarei exercitá-la. Aí vamos nós...

Para você, "a Bíblia é clara em proibir as imagens"? Mas você disse que não tem religião! Ora ora, se você crê na Bíblia, então você tem religião, sim senhor. E pelo teor da sua fala, pelas suas acusações, premissas básicas e expressões, a sua religião é a religião do livro, aquela que ensina que Deus se resume à interpretação do livro. Você é, como já está mais do que claro, mais um "evangélico" preconceituoso, que memorizou meia dúzia de passagens das Sagradas Escrituras e se acha no direito de caluniar a Igreja Católica, – a mesma que produziu e canonizou, sob a inspiração do Espírito Santo, a Bíblia que carrega debaixo do braço.

Mas você anda lendo bem a Bíblia? Lê com boa vontade, com o desejo sincero de encontrar a Verdade? Ou você diz "amém" para tudo que o "pastô" diz? A minha Bíblia diz que Deus mesmo ordena a confecção de imagens, em diversas situações: manda esculpir e colocar querubins sobre a Arca da Aliança, o objeto mais sagrado do Antigo Testamento. Manda Moisés esculpir uma serpente de bronze, através da qual opera a cura no povo. Manda Salomão construir seu Templo repleto de imagens, com esculturas de anjos, de bois, de leões, de querubins de duas cabeças, de seres alados, etc, etc... E veja bem, são imagens de uso cultual, relacionadas diretamente ao culto divino. Está tudo na Bíblia!

Então, vou explicar de novo: idolatria não é usar imagem no culto; isso sempre aconteceu, desde o tempo de Moisés: o problema estava nas imagens dos ídolos, as imagens dos deuses pagãos. Idolatria seria adorar uma imagem como se fosse Deus ou um deus. Isso é tão óbvio! Você acha mesmo que nós, católicos, somos tão ignorantes a ponto de achar que imagens de gesso são deuses? Sabe, eu não acredito nisso. Acho que você só teve uma formação equivocada. Acho que você teve a cabeça feita por algum falso profeta que chamam de "pastor", e perdeu a capacidade de pensar por si mesmo. Se você tiver humildade suficiente para aprender coisas novas, leia aqui o que já publicamos sobre esse tema tão manjado. Se quiser aprofundar, há ainda mais aqui.

Contestações "evangélicas": as mesmas de sempre

Quanto ao resto de sua mensagem, perdoe-me, mas é o mesmo blablabla de sempre: você fala de pedir aos santos, de "adorar" Maria... Os santos são nossos irmãos do Céu, como diz a Bíblia: “Aqui (no Céu) está a paciência dos santos; aqui estão os que guardam os Mandamentos de Deus e a Fé em Jesus” (Apocalipse 14, 12), e a Igreja Católica nunca, jamais ensinou ninguém a "adorar" Maria. Se você me mostrar onde o Catecismo católico ou qualquer documento de qualquer Papa diz que devemos adorar Maria, eu lhe dou razão. Para adiantar outros possíveis (e previsíveis) questionamentos seus, deixo aqui uma lista com as principais contestações "evangélicas" já respondidas neste site, assim fica mais fácil.

Finalizando, observo mais uma vez que é muito engraçado que você, que critica a religião, venha defender ferrenhamente uma religião específica, a religião do livro, a religião dos "evangélicos". Todas as afirmações que você fez, como já disse, saíram da boca de algum "pastor" e se instalaram na sua mente, travestidas de verdades absolutas! Você comprou a religião do "pastor", e pior: ainda acha que não tem religião...

Deus os abençoe e lhes conceda discernimento, é o que peço em minhas orações.

Henrique Sebastião

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1. BIANCHI, Ugo. The Notion of "religion" in Comparative Research. Roma: L'erma di Bretschneider, 1994, p. 63-73.

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