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Oração e alegria: a Via da Purificação e a Via da Iluminação


A Negação de S. Pedro - Caravaggio (1610)

A CONVERSÃO, no cristianismo, é um processo que se dá com base principalmente na vontade. Nesse processo, o elemento mais importante não é o intelecto, e menos ainda a emoção, por seu caráter efêmero, fugaz, inconstante. Atualmente, entretanto, florescem movimentos religiosos que valorizam o sentimentalismo, criando e alimentando nos fiéis a ideia de que o “sentir-se bem” deve servir como principal parâmetro para decidir se aquele caminho religioso é autêntico ou não.

"Aqui está Deus, porque aqui eu me sinto bem", é o pensamento dos frequentadores de certos grupos religiosos. Acham, por exemplo, que a oração ideal é aquela em que o sujeito fica emocionado, chora, sente um ardor no peito... As Missas e/ou cultos são excessivamente animados, muitas vezes com batucadas ou guitarras distorcidas e bateria alta, aplausos constantes e até danças coreografadas. Tudo isso cria um estado de euforia e empolgação, mas... Trata-se de uma alegria passageira. E a pessoa fica condicionada a querer sempre mais. Logo começa a pensar que, numa celebração em que não aconteça todo aquele ardor festivo, Deus não está presente. Será?

Grandes santos e doutores da Igreja, como Tomás de Aquino, João da Cruz e Catarina de Sena, entenderam que a construção da verdadeira alma cristã passa por etapas distintas, dentre as quais a Via da Purificação e a Via da Iluminação.


A Via da Purificação

O primeiro momento da Via da Purificação ocorre quando a alma encontra Deus: num primeiro momento, sente-se saciada e amada por Ele. Começa a reconhecer Deus como Amigo, Companheiro... Pai: o Deus que é Bom, que é Provedor, que nos ama e salva. As orações são fervorosas, a alma sente-se “enamorada” de Deus. Há muita alegria e entusiasmo nessa fase, que pode ser simbolizada pelo tempo em que os Apóstolos conviveram face a Face com Jesus. Eles compartilhavam da intimidade do Senhor, caminhavam juntos, tiveram a imensa graça de presenciar seus grandiosos milagres e de contemplar Jesus Glorioso no alto do Tabor (Mt 17,1-9; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36; 2Pd 1,16-18). Desfrutavam da reconfortante sensação de serem “amigos de Deus”.

No segundo momento da Via da Purificação, porém, a alma começa a perceber que continua com os mesmos defeitos, que tinha antes de conhecer a Deus, antes desta primeira conversão. É um momento difícil, delicado. Um símbolo desse estágio é a passagem em que S. Pedro, discípulo destacado em quem Jesus confiou de modo especial, e a quem concedeu as Chaves do Reino, nega o Senhor por três vezes, chegando mesmo a dizer “Não conheço esse homem!” (Mt 26,74). – É quando o convertido percebe que ainda precisa lutar, e lutar contra si mesmo, contra suas fraquezas, medos e antigos vícios, pois ainda é o mesmo ser humano pequeno e falho. – É a “luta da carne contra o espírito” referida no Evangelho segundo S. Marcos (14,38) e em todo o capítulo 7 da Epístola aos Romanos. A oração, então, perde fervor; a alma tem a impressão de que Deus não lhe responde. Surge um vazio. E é então que dois possíveis caminhos se abrem, e um deles deverá ser escolhido: o da purificação ou o da queda.

1ª possibilidade: a purificação – Acontece se a alma começa a aprender que, mesmo em Comunhão com Deus, continua somente humana e fraca; que tem de se entregar a Deus a cada dia, a cada instante, e que nada menos que essa entrega total será suficiente. Entende que ser cristão é tornar-se verdadeiramente manso e humilde diante do Criador. Não é preciso e de nada adiantará buscar Deus nas fortes emoções, nas sensações intensas… É a silenciosa e simples Presença de Deus que lhe dá força, e nada mais é necessário. E essa pessoa, – que não apenas confessa a fé no muito falar, mas ama a Deus em seu íntimo, – prossegue, esquecendo-se de si própria. É um outro processo delicado: o da eliminação do amor próprio.

Importante dizer que eliminar o amor próprio, nesse caso, não quer dizer desprezar-se ou odiar a si mesmo, num sofrimento doentio, esquizofrênico e estéril. Eliminar o amor próprio é "negar-se a si mesmo", como diz Nosso Senhor (Mc 8,34-35), no sentido de reconhecer-se pequeno, incapaz de alcançar a salvação por seus próprios méritos. Quer dizer aceitar suas limitações e render-se diante da Soberania Divina. Por nós mesmos, nada podemos fazer (Jo, 15, 5). É Deus Quem realiza em nós as grandes e pequenas coisas.

2ª possibilidade: a queda – acontece se a alma chega a não suportar mais o fato de que Deus não lhe responde. Não suporta e não aceita que seja tão fraca. Começa a achar que, ao procurar Deus, exagerou na dose, que na realidade tudo não passou de um furor vazio, uma ilusão. A fé começa a se enfraquecer, cai nos vícios; a pessoa se perde do caminho da purificação, retomando, por fim, sua vida antiga, a que levava antes da conversão, antes de ter se interessado por Deus.


A Via da Iluminação

Finalmente, aquele que vence a etapa da Via da Purificação começa a Via da Iluminação. É quando a alma adquire uma maior consciência da Presença de Deus, começa a ver o Toque de Deus no dia-a-dia, a manifestação do Amor de Deus às suas criaturas, mesmo no sofrimento, nas dores e dificuldades. Começa a perceber e saber que Deus está sempre com ela, e compreende que até mesmo as decepções deste mundo têm sua razão de ser, pois “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). A alma tem o que se chama de “Presença de Deus”, como diz o Senhor a Santa Catarina de Sena em sua obra clássica “Diálogos”:

“Nada foi feito e nada se faz sem a resolução da minha divina Providência. Em tudo o que permito, em tudo o que vos dou, nas tribulações e nas consolações, temporais ou espirituais, nada faço senão para o vosso bem, para que sejais santificados em Mim e para que minha Vontade se cumpra em vós.” (Diálogos, cap.166)

A via da iluminação, entretanto, tem ainda um risco: a alma está subindo importantes degraus em direção a Deus, sim, porém, quanto maior a altura, maior poderá ser a queda. A alma deve permanecer no seu caminho de encontro a Deus e o desafio nessa fase é superar o orgulho espiritual, isto é, o de achar-se melhor que os outros, julgar-se especial, mais santo, mais sábio, mais iluminado. Corre o risco de achar inválida ou até ridícula as manifestações de fé alheias. A alma pode viver um egoísmo, uma soberba espiritual. Sabe que Deus está com ela, e ama também a Deus, mas tem dificuldade em amar igualmente as demais pessoas, porque enxerga seus erros e não os compreende. Quer que as coisas sejam “do seu jeito”, não aceita quem vive de modo diferente.

Esta é uma etapa importantíssima a ser vencida. Se a alma conseguir superar mais este desafio, estará verdadeiramente próxima de Deus e de uma vida cristã abençoada. – O que, por sua vez, não significa estar livre de todos os problemas e dificuldades deste mundo, mas saber lidar realmente bem com todas as situações, de modo sereno e tranquilo. – A alegria não mais se dissipará, o desespero não mais encontrará lugar, pois existirá a consciência da permanente Presença de Deus em todos os momentos. Reinará nesta vida uma alegria calma, silenciosa, perene, refletida, prudente, sensata. Vemos esse tipo de comportamento, reflexo da autêntica Comunhão com Deus, nas vidas dos santos. É esta fé e é esta consciência que conferem o amor, a coragem, a paciência e a persistência necessárias para ser cristão na prática. O próximo estágio será o da transformação maior e definitiva da alma, a chamada Via Unitiva dos Perfeitos, em que se vive o mais alto estágio da perfeição cristã.


Conclusão

Talvez aquelas celebrações citadas no começo deste artigo, fundamentadas na emoção e na euforia, coloquem os fiéis que delas participam no caminho da purificação, naquele primeiro estágio em que a pessoa "encontra Jesus": é aquele momento muito feliz, alegre e agradável, que vem após a conversão espiritual. É quando a pessoa começa a chegar perto de responder às grandes perguntas existenciais (Quem eu sou? De onde venho? Por que existo? Quem é Deus?).

Os movimentos pentecostais ou carismáticos valorizam esse clima de emoção, e não há problema nisso. Ocorre que, se a emoção é posta como condição ou parâmetro para a prática religiosa, com o tempo surgirá a inevitável crise de identidade espiritual. A alegria inicial não dura para sempre, ao menos não no plano sensitivo (expansivo). E então, quando a pessoa começa a sentir que está “enfraquecendo” na fé, pois o seu entusiasmo começa a esmorecer, se o esforço se concentrar somente em manter aquela emoção inicial, o risco de cair é grande. É aí que o católico mal orientado deixa de ir à Missa, abandona a Igreja, esquece Deus. Sente como se tudo tivesse ficado no passado, quer resgatar a alegria inicial, não se conforma com o esfriamento dos sentidos. Muitos, nesse momento de fragilidade, acabam encontrando alguma seita fundamentalista e, na ânsia por recuperar as emoções iniciais, aderem a uma nova religião. Comumente, a partir daí continuam migrando de uma "igreja" para outra, num processo angustiante, sem nunca encontrarem verdadeiramente o que buscam.

Sem uma formação sólida, abrem-se as portas para a perda da fé verdadeiramente católica. É inútil querer "prender" alguém somente pela emoção. O pretenso e forçado "carismatismo" se situa fora da fé, fora da Verdade, fora da religião tal como Deus a criou. Ninguém pode depender das próprias emoções, tornando-se seu "refém" para continuar fiel a Deus. Deus está na alegria da conversão, mas está também na oração silenciosa, na contemplação do Mistério Divino, na quietude da adoração interior e verdadeiramente espiritual, no silêncio de uma reflexão cheia de amor e devoção sincera.

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• Referência:
LAGRANGE. Garrigou. As Três Vias e as Três Conversões, 4ª ed. Rio de Janeiro: Permanência, 2011.

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