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O mistério da iniquidade e a apostasia dos cristãos


Luca Signorelli, capella de San Brizio. 'Predica e punizione do Anticristo'
(clique sobre a imagem para vê-la ampliada)

...Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a Terra?"
(Lc 18,8)

OS AFRESCOS DE LUCAS Signorelli sobre o fim do mundo, expostos na capela de São Brizio, na Catedral de Orvieto, traduzem um aspecto dramático da história humana: a atuação do Anticristo. Para a Tradição da Igreja, encontrada de maneira explícita no Didaquê (o primeiro catecismo dos cristãos – leia na íntegra aqui), este ser seria o sedutor do mundo, ou seja, aquele que "aparecerá como o filho de Deus e fará milagres e prodígios; e a Terra será abandonada em suas mãos; e realizará iniquidades como nunca houve" (conforme também Mt 24,24; 2Tes 2,4-9).

De uns tempos para cá, a fé acerca de temas como o Juízo Final, a existência do demônio e, especialmente, a do Inferno, têm se tornado obsoleta. Parece-nos que a maioria absoluta das pregações dá enfoque, – e trata praticamente com exclusividade os temas relacionados ao perdão, à afabilidade de Deus e sua misericórdia. – Desgraçadamente, uma vez que se exclui a Justiça divina e a sedução diabólica da catequese cristã, abre-se caminho à banalização do mal, pois se o cristianismo já não prega sobre o Inferno, e apenas sobre a ternura de Deus, isso significa que já não é mais necessária uma mudança de vida para se enquadrar nos Desígnios divinos. Afinal de contas, se Deus é Amor e a tudo perdoa, concluem muitos, não é preciso se preocupar com pecado e punição?

"Deus não castiga", bradam alguns; "a misericórdia de Deus é infinita", insistem outros. Examinemos rapidamente estas afirmações tão comuns em nossos tempos, para entender se possuem algum lastro na realidade objetiva daquilo que é ser cristão e no ensinamento perene do Evangelho.

Quanto à primeira afirmação, – "Deus não castiga", – está total e simplesmente equivocada. É contrária a toda doutrina cristã e ao Catecismo da Igreja Católica (veja o leitor os nºs 1031; 1038; 2006; 2061 e 2090 do manual cristão), assim como às próprias Sagradas Escrituras (consulte-se as seguintes passagens: Zc 14,19 Ez 14,10; Os 5,9; 2Ts 1,9; Ap 3,19; etc). Sempre que ouvirmos tal afirmação, é dever de todo fiel cristão católico corrigir, com fraterna caridade e de modo suave, a pessoa que o diz; se esta não aceitar a correção, devemos então ignorá-la e advertir aos outros ouvintes, quanto nos for possível, do erro da afirmação. Quanto aos parágrafos do Catecismo e às passagens bíblicas sugeridas acima entre parênteses, é importante consultá-los, compreender seus conteúdos e procurar memorizá-los, tanto quanto possível.

Já a segunda afirmação, – de que a misericórdia de Deus é infinita, – está corretíssima. Todo o conjunto dos livros do Novo Testamento confirma esta verdade fundamental da fé, e apenas a título de exemplo poderíamos citar Ef 2,4; Tt 3,5; Hb 4,16. Todo cristão sabe que a humanidade merecia o castigo, porque pecou, mas Deus enviou seu Filho para nos libertar e salvar para a vida eterna. Logo, Deus é misericordioso. E por que dizemos que a misericórdia de Deus é infinita? A lógica humana pode sugerir que, se há castigo, então a misericórdia divina não é infinita, mas parcial. Existem dois pontos que, se bem analisados, fazem-nos compreender bem esta questão aparentemente complexa ou de difícil compreensão. O primeiro ponto é o fato de que a Misericórdia divina age concomitantemente com a sua Justiça. Deus é Amor; Deus é Justo: ambas as afirmações são precisas, e inclusive se integram e se complementam de muitos modos. Sem justiça dificilmente há verdadeiro amor e verdadeira misericórdia, pois às pessoas que amamos naturalmente desejamos educar na justiça: dar a um filho, por exemplo, a total "liberdade", – inclusive para se drogar, prostituir e se perder nos desatinos da adolescência e juventude, – seria o gesto de um pai que ama verdadeiramente? Por amarmos realmente aos nossos filhos não precisamos às vezes agir com severidade, chamando-lhes a atenção, aplicando castigos, forçando-os a estudar, a cumprir os seus deveres, a respeitar a autoridade, os mais velhos, etc., dando-lhes, enfim, a disciplina que lhes será tão necessária no correr de suas vidas, para que sejam felizes e dignos, e conquistem coisas boas em suas vidas?

Muito bem, este é um ponto para entender porque dizemos que a Misericórdia divina é infinita, mesmo existindo o Castigo para os pecados: em Deus, sua Misericórdia é uma força que age sempre em conjunto com a sua Justiça. Uma coisa não funciona sem a outra.

O outro  ponto é a necessária compreensão de que o pecado contra Deus é um crime de gravidade infinita. Ora, Deus é infinitamente Bom, infinitamente Amoroso e infinitamente Justo. É o sumo Bem e o sumo Ser. Assim sendo, nossos crimes contra Deus são infinitamente graves; logo, merecedores de uma pena proporcional, isto é, sem fim. Portanto, sendo Deus infinitamente Bom, e os crimes contra Ele infinitamente graves e dignos de um castigo proporcional, a misericórdia necessária para perdoá-los também precisa ser absolutamente infinita. Tal realidade se revela de modo ainda mais claro no fato de que Deus volta sempre a nos perdoar, ainda que diariamente, por mais que voltemos a pecar contra Ele (crime de gravidade infinita), todos os dias, sempre que admitimos o nosso erro, arrependemo-nos e confessamos o pecado, pedindo perdão. Não há limite, não há um número de vezes que Deus estabeleça para nos perdoar, até dizer: "Se passarem deste limite, não perdoarei mais, porque a minha misericórdia acaba nesta linha". Ao contrário, Deus perdoa sempre, de novo e de novo, e ainda que tenhamos vivido uma vida inteira de crimes e só de maldades, se nos arrependermos e nos confessarmos no leito de morte, seremos perdoados.

Assim, em resumo, estamos falando de um Bem e uma Bondade infinitas; por isso é que os pecados contra este Bem e contra esta Bondade são de gravidade proporcionalmente infinita; logo, para perdoar pecados de ilimitada gravidade, é necessária a misericórdia sem medidas: infinita misericórdia. Tal é a Misericórdia de Deus para conosco.



Voltando ao triste relativismo que hoje impera no mundo, desgraçadamente inclusive entre os filhos da Igreja, trata-se uma tendência muito em voga nos tempos atuais, sobretudo no que diz respeito aos valores inegociáveis da fé cristã e católica e às perseguições que a Igreja sofre. Ao invés de se indispor com o mundo, prefere-se não tomar partido de nenhum lado, numa tentativa de se agradar a todos, mesmo que isso signifique negar a verdade. O Catecismo da Igreja Católica, mais uma vez, denuncia que essa é uma atitude genuinamente diabólica: “A impostura religiosa suprema é a do Anticristo, isto é, a de um pseudo-messianismo em que o homem glorifica a si mesmo em lugar de Deus e de seu Messias que veio na carne" (CIC 675).

Cardeal G. Biffi
O perfil do Anticristo, segundo o teólogo Cardeal Giacomo Biffi, apresenta "altíssimas demonstrações de moderação, de desinteresse e de ativa beneficência". Além disso, é um pacifista nato, com grandes preocupações ecológicas e humanitárias. De Cristo, nega peremptoriamente a moral, pois, de acordo com sua concepção, ela seria causa de divisões. Em linhas gerais, ele traz uma falsa promessa de "libertação" e triunfo político, ou seja, um messianismo secularizado, conforme proposto por certas correntes ditas teológicas persistentes, que vêm resistindo incólumes a toda ação do Magistério da Igreja, em especial da parte dos últimos Papas, que condenaram em diversas oportunidades esse falso misticismo. Antes como por exemplo na encíclica Divini Redemptoris do Papa Pio XI (Sumo Pontífice da Igreja de Cristo de 1922 a 1939) sobre o comunismo ateu.

É curioso, – e ao mesmo tempo terrível, – perceber que numa época em que já não se fala mais no Anticristo, no Diabo e no Juízo Final, mas simplesmente em misericórdia e respeito humano, o número de violências, guerras e outros males é absurdamente enorme, em alguns sentidos como nunca antes. C. S. Lewis, autor d"as Crônicas de Nárnia", escreveu em "Cartas de um diabo ao seu aprendiz" que a melhor maneira de o demônio conquistar o mundo é fazendo com que a humanidade não creia nele.

Não está cada vez mais comum encontrar "cristãos" que pregam o "amor", mas que são incapazes de protestar contra o aborto? Pessoas que se indignam, movem campanhas e propõem duras punições para os agressores de animais, mas que sequer se importam com a criança abandonada na porta de sua casa, ou com o idoso largado em um asilo próximo, com quem ninguém se importa ou lembra de visitar?

Não é cada vez mais comum a figura do "católico" que diz amar Jesus e chora com cantos religiosos emotivos, mas é negligente para com os seus pecados, sem perceber que com isso são também responsáveis pelas Chagas de Cristo na cruz?

Denunciou o então Cardeal Joseph Ratzinger, na Via-Sacra de 2005: "Não se pode continuar a banalizar o mal, quando vemos a imagem do Senhor que sofre". Todavia, o mal se pratica hoje por pessoas que se declaram cristãs. Sim, o Anticristo parece estar solto no mundo e tem feito muitos discípulos. São servos do maligno aqueles que relativizam a verdade e propõem a apostasia como alternativa à perseguição à Igreja.

Enquanto os mártires do passado entregaram suas vidas para que a fé católica fosse preservada e professada hoje, muitos seguidores do Anticristo têm servido a Cabeça da Igreja numa bandeja para o
"Príncipe deste mundo" (Jo 16,11). Falam de amor, preocupam-se com a natureza, pregam a paz, mas não se incomodam quando a fé em Jesus Cristo é ultrajada, enquanto a Igreja é profanada pelas hostes infernais. É o "mistério da iniquidade" predito pelo Senhor quando perguntou aos Apóstolos: "Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a Terra?" (Lc 18, 8).

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Baseado no artigo 'O mistério da iniquidade e a apostasia dos cristãos', da equipe Christo Nihil Praeponere, disp. em:
https://padrepauloricardo.org/blog/o-misterio-da-iniquidade-e-a-apostasia-dos-cristaos

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