Pular para o conteúdo principal

A Pequena Vendedora de Fósforos





"Porque para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fil 1,21), diz São Paulo. O apóstolo dos gentios confessa que partir para junto do Senhor seria "imensamente melhor", apesar dele amar a vida, pois estando vivo pode servir aos irmãos. Como eu estou diante dessa Palavra? Eu me identifico com São Paulo, ou estou a mil anos luz desse desprendimento?

Fiquei muito sensibilizada pela análise que apresento a vocês abaixo, sobre um conto de Hans Christian Andersen. Muitas vezes gastamos a maior parte do nosso tempo buscando garantir a felicidade - ou ao menos a estabilidade e segurança - nesta vida aqui, quando Cristo e toda a Bíblia nos ensinam que essa vida passa logo, que os servos de Cristo são perseguidos e sofrem muito neste mundo, e que o nosso verdadeiro lar não é aqui.

*****

A PEQUENA VENDEDORA DE FÓSFOROS

por Rodrigo Figueiroa

Em uma fria véspera de Ano Novo, uma menina pobre, jovem, tenta vender fósforos na rua. Ela já está tremendo de frio e hipotermia precoce, e ela está andando descalça tendo perdido seus chinelos. Ainda assim, ela tem muito medo de ir para casa, porque seu pai vai espancá-la por não vender nenhum fósforo. A menina toma o abrigo em um recanto de um beco e senta-se cabisbaixa.

A menina acende os fósforos para aquecer-se. Em seu brilho, ela tem várias visões encantadoras, começando com um fogão, depois uma festa de ceia onde o ganso assado quase salta para ela, e então uma árvore de Natal maior do que a da casa de um comerciante rico. Logo ela percebe que as luzes da árvore são na realidade as estrelas.



A menina olha para o céu e vê uma estrela cadente; Ela então se lembra de sua avó falecida dizendo que tal estrela cadente significa que alguém está morrendo e vai para o Céu. Quando ela acende o próximo fósforo, ela vê uma visão de sua avó, a única pessoa que a tratou com amor e bondade. Para manter a visão de sua avó viva por tanto tempo quanto puder, a menina acende todo o pacote de fósforos de uma só vez.

Depois de ficar sem fósforos, a criança morre e sua avó leva seu espírito para o céu. Na manhã seguinte, os transeuntes encontram a menina morta no recanto, congelada com um sorriso no rosto, e o monte de fósforos queimados ao lado dela. Eles sentem piedade por ela, embora não tenham demonstrado bondade com ela antes de sua morte. Eles não têm como saber sobre as visões maravilhosas que ela teve antes de sua morte ou como gloriosamente ela e sua avó estão agora celebrando o Ano Novo no Céu.



Esse pequeno conto de 1845 foi escrito por Hans Christian Andersen, o criador de A Pequena Sereia e O Patinho Feio. Durante o início do séc 20, na Revolução Industrial, as pessoas não ligavam para os pobres. Com as "muitas oportunidades" da indústria (como trabalhar em minas de carvão), a pobreza era considerada um traço de personalidade, a pessoa era pobre porque não "trabalhava o bastante". E mendigar era ilegal no país e época de Andersen, então os pobres vendiam fósforos e outras quinquilharias na rua como recurso ou uma forma de mendigagem "justa".

Abuso infantil também era comum nessa época. As alucinações da menina são sinais da hipotermia. Mas a aparição de sua vó é ambígua. Pode ou não ser uma alucinação como as outras. De toda forma, a aparição de um ente falecido é um sinal da proximidade da morte em muitos casos de "quase-morte". Nesse caso, é importante notar que Hans Christian Andersen achava que esse conto teve um final feliz. Muitas pessoas não entendem ou se sentem extremamente desconfortáveis com esse pequeno conto, porque ele parece triste e sem esperança. Isso mostra o contraste de como nosso tempo é sem fé.

Pois esse conto trata não apenas da dura realidade, mas da fé. O final da pequena vendedora de fósforos é para todas as pessoas de fé um final feliz, junto de seu único ente amado e de Deus. Para nós, que achamos a vida a última bolacha do pacote, mesmo quando nos consideramos pessoas de fé, só acreditamos nessa fé quando ela serve à vida.

Contraste sua fé com a de Andersen e de seus contemporâneos, e com a fé da pequena vendedora de fósforos, e verá que a sua talvez não seja tão forte. Todas as esperanças da menina eram em bens dessa vida que temos por "garantido" e que ela nunca teve; e morreu sem ter; e no final sua recompensa foi maior do que as que ela esperava. Ainda assim, para nós, isso parece um faz de conta para consolar quem não tem nada. Não parece algo de substância.



Pensar em uma criança morrendo na Véspera de Ano Novo é incômodo, mas acontece todos os anos. Aqueles que têm tudo ignoram uma pessoa que pede por moedas.

Muitas pessoas "perdem a fé em Deus" porque Deus não fez o que elas queriam, não ajudou no que elas acreditam merecer. Esse tipo de pensamento é de alguém que realmente não tem nem nunca teve fé ou compreensão da natureza das coisas espirituais, a partir do princípio de não entender Deus como a causa da Criação, mas como um Papai Noel, que dá presentes aos bonzinhos e castiga os levados.

A nossa era não vê substância no final, porque não tem fé. A fé em nossa era se resume em esperança por coisas boas que possam ser desfrutadas em vida. Mas Andersen nos lembra, como era entendido pela maioria das pessoas em sua época, que a fé deve ser em coisas boas no ESPIRITUAL, e que as coisas da vida, seriam bem menos piores se não ignorássemos ao longo do ano as pequenas vendedoras de fósforos.

O final da vendedora de fósforos foi bom, e essa é a parte que cabe à Deus. A vida dela foi ruim, e essa era a parte que cabia a nós.



Publicado em Catequese sem sono

Postagens mais visitadas deste blog

Reflexão sobre o Evangelho segundo S. Lucas, cap. 14, vs. 25 a 33

Leitura do Evangelho do 23º Domingo do Tempo Comum



No capítulo 14 do Evangelho segundo S. Lucas, vemos Jesus que quer preparar a todos os seus seguidores para o seu Sacrifício na Cruz, bem como para as consequências que implicam da decisão de segui-lo. O Senhor, com imensa decisão, resolve partir para Jerusalém, mesmo sabendo que caminha para a sua própria morte.
No versículo 25, Jesus vê que não está sozinho: grandes multidões o acompanhavam. O texto original em grego enfatiza que aquelas pessoas “caminhavam junto” com Ele. Aquelas pessoas vão com o Senhor, e Ele quer alertá-las, torná-las conscientes de para onde estão indo e em que implicará a decisão de acompanhá-lo. Parando no meio da jornada, Ele se volta para essas pessoas e lhes diz algo como: “Vocês querem ir comigo, mas vocês sabem qual é a realidade de ser meu discípulo?”.
Aquilo que devemos dar a Deus Pai, conforme descreve o capítulo 6 do Livro do Deuteronômio, ficamos sabendo que devemos dar também a Deus Filho: “Amarás o…

Costumes Matrimoniais nos Tempos Bíblicos: Casamento, Levirato, Violações do Casamento, Pessoa solteira e Divórcio"

Nos tempos bíblicos, o primeiro passo no casamento era dado pelo homem ou por sua família (Gênesis 4:19; 6:2; 12:19; 24:67; Êxodo 2:1). Geralmente, as famílias do casal faziam o arranjo do casamento. Assim Hagar, como chefe da família "o casou [Ismael] com uma mulher da terra do Egito" (Gênesis 21:21). Estando Isaque com quarenta anos de idade, era perfeitamente capaz de escolher sua própria esposa (Gênesis 25:20); no entanto, Abraão mandou seu servo a Harã a fim de buscar uma esposa para Isaque (Gênesis 24). Abraão deu ao servo duas ordens estritas: A noiva não podia ser cananeia, e devia deixar o lar paterno para viver com Isaque na Terra Prometida. Em circunstância alguma devia Isaque voltar a Harã para viver de acordo com o antigo modo de vida da família. O servo de Abraão encontrou a orientação do Senhor em sua escolha (Gênesis 24:12-32). Então, segundo o costume da Mesopotâmia, ele fez os arranjos com o irmão e a mãe da moça (Gênesis 24:28-29, 33). Ele selou o acordo …

Moringa, uma planta com imensos benefícios

Se ainda não ouviu falar da moringa, vai, neste artigo ficar a conhecer uma planta com bastantes benefícios para a saúde e o bem-estar do corpo. Moringa (Moringa oleifera) é uma planta de origem tropical ainda pouca conhecida na Europa, embora o seu uso como suplemento dietético comece pouco a pouco a estender-se. Um número cada vez maior de estudos científicos associam a ingestão de moringa em pó com inúmeros benefícios para a saúde, como a melhoria da pressão arterial, da glicose, a redução do colesterol, entre os outros. A árvore da Moringa Oleifera atinge uma altura de 7-12 metros é, originária das zonas próximo do Himalaia (Índia e Paquistão), e muito popular em países tropicais e subtropicais da África, Ásia (Filipinas, Camboja), América do Sul e Central e no Havaí, onde também é cultivada. Moringa – um potencial suplemento dietético A árvore de Moringa vem sendo usada ao longo dos tempos como uma planta medicinal. Sendo por isso conhecida como árvore milagrosa. Todas as partes …